12 de mar de 2013

O dia que George foi ao programa do Jô - CRONICAS


Nova York, domingo, 19:13 h. George caminhava cambaleante pelas ruas do uptown.  Era final do outono e a neve prevista não passava de uma garoa fria.

Os seus últimos tostões ele gastara numa garrafa de vinho barato. Entra em casa, descendo as escadas que vai direto ao seu pequeno apartamento, abaixo do nível da rua.

O apartamento está razoavelmente limpo.  Horas antes a faxineira, que ele nunca encontra, fizera parte do seu trabalho.  Há meses ele não a paga.

Olha seus e-mails. Nada além de spams.  Pelo menos ele tem o trabalho de limpar a sua caixa de entrada e olha uma ou outra mensagem para passar o tempo.  Na TV, só reprises.  Toma um trago e lê um livro na cama. Na terceira página adormece.

Acorda com o telefone tocando.  Do outro lado uma voz anuncia que ele foi escolhido para...  

Ele desliga o telefone e vai para a pequena cozinha e abre a geladeira. Resta ainda um pedaço de queijo e um pouco de suco. O telefone volta a tocar. Desta vez anuncia o seu nome:
- Mister George, não desligue. Não é um trote.  O senhor foi realmente escolhido...
- Como?  Escolhido para o quê?
- Para participar de um “talk show” no Brasil, no programa do Jô.
- Deve haver algum engano. Não sou celebridade.
- Eu sei. Por isso mesmo.  Queremos algo novo e o senhor se encaixa.
- Ah, tá bom.
- Não desligue Mister George, isso não é um trote.
- Desculpe, mas meu café está esfriando.

O dia está frio, muito frio. A previsão da meteorologia chegou com um dia de atraso. Lá fora: neve, muita neve.

Três dias depois alguém bate a sua porta.
- Quem será?  Não recebo visitas há meses.
O mensageiro:
- É o senhor George Hicel?
- Sim, do que se trata?
- Tenho uma encomenda para o senhor, assine aqui por favor.
- Que estranho!   Ok!  Não tenho gorjeta, meu caixa está baixo.
- Não tem importância, tenha um bom dia, miserável.
- O que o senhor disse?
- Tenha um bom dia!
- Você também!

George abre o envelope. Dentro algumas notas de 100 dólares, talvez 20, uma passagem para o Brasil e um bilhete: “ligamos depois para combinarmos os detalhes”.

Na semana seguinte outra voz ao telefone:
- Aqui é da produção do programa do Jô. Estamos ligando para combinarmos alguns detalhes.
- Sei!
- Recebeu a passagem e o dinheiro que enviamos?
- Sim, 2000 dólares.
- Compre algumas roupas, corte o cabelo...
- Não posso viajar com 2000 dólares. Estou descapitalizado no momento e o resto das despesas ?
- Não se preocupe, o senhor não terá despesas. Alguém o aguardará no aeroporto e, além disso, o senhor deve retornar no mesmo dia. O voo será rápido, muito rápido. Até logo.
- Ei, um momento... (sinal de linha ocupada).

No dia seguinte George sai do apartamento depois das 10 h e deixa na mesa 100 dólares para Maria, a faxineira, com um bilhete: ”Compre alguma coisa para o almoço e o que sobrar é seu”.  

Em frente ao espelho do barbeiro ele se assusta. Parece ter rejuvenescido pelo menos 20 anos.  Pega o metro e vai até o mercado de pulgas onde compra duas camisas, uma calça e um par de sapatos. Afinal, para que roupas novas?  Preferiu sapatos largos aos apertados, pois não encontrou o seu número e viajar com sapatos apertados...

Entra em casa e nada de almoço preparado. Em vez disso um bilhete: “Você sequer disse obrigado. Pra mim chega!  Não me espere. Não voltarei”.

Quanta ingratidão pensou ele. Bom, amanhã parto pro Brasil e não precisarei dela por uns tempos.

Logo cedo o sol entrou pela sua pequena janela. Era um dia de primavera. Muito estranho pensou.  Levantou, fez a barba e abriu a geladeira. Outra surpresa: havia frutas, iogurtes, suco etc.  Depois do o café da manhã partiu para o aeroporto com uma pequena valise.  Afinal não tinha muitas coisas. Ao deixar o apartamento teve a sensação de ter visto uma cruz na porta. Não deu importância e foi direto para o aeroporto. Lá o alto falante já anunciava o seu nome para embarque imediato.
- Nossa, que incrível!

O voo não durou 15 minutos e já estava aterrissando no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.  Estava atônito. Como a tecnologia havia avançado e ele não percebera.

Ao descer do avião uma equipe o aguardava com uma van dentro da pista.  Não foi preciso se identificar pois a equipe se dirigiu diretamente a ele e o recepcionou como se já o conhecesse.

A única comunicação entre eles foi um:
- Bom dia senhor. Fez boa viagem?
- Sim a viagem foi ótima, bom dia pra vocês também.

Dentro do carro, com todo o conforto, estava ele e o motorista. Os outros sumiram.

Quando saíram do aeroporto perguntou ao motorista se estavam indo pro hotel. Este respondeu:
- Não te disseram? Estamos indo direto para o estúdio.
- Ah bom.

No caminho estranhou muito o que estava vendo.  As ruas, as pessoas e os prédios não pareciam modernos e sim os mesmos do tempo em que era menino.

Passou pelas ruas do antigo caminho de sua casa para a escola e viu os mesmos jardins e plantas onde costumava trocar espadas.  Na época eram os mouros.  No chão alguns galhos e folhas frutos de seus golpes nos mouros que obstruíam o seu caminho.  Nesses embates nunca saiu ferido apesar de alguns moradores desejarem degolá-lo pelo estrago proporcionado.

Algumas casas ainda tinham as vidraças quebradas e até cacos de vidro no chão.  Era o exercício de tiro (pedra) ao alvo.  O que ele mais gostava não era escutar o barulho do vidro caindo e sim a bronca do dono da casa nos meninos que passavam depois.  Algumas vezes, depois das pedras, ousava tocar a campainha e quando o dono aparecia quem ele encontrava?  Não era George, com certeza.

George teve a impressão de rever seu antigo cachorro que o acompanhava no caminho da escola e depois voltava para aguardá-lo em frente a sua casa.  Depois do almoço George sempre lhe trazia alguma comida e isso ajudou a manter a amizade entre os dois.  O cachorro, cujo nome George esquecera, era impedido de entrar em casa, o que somente ocorria quando o pai estava ausente, mas ele, o cachorro naturalmente, dormia na rua ou escondido na garagem.

Ele também teve a sensação de rever alguns meninos que costumavam persegui-lo no caminho da escola.  Eles eram de outro quarteirão e havia uma rixa entre eles cuja origem era desconhecida por todos. Quando se avistavam parecia que os seus pelos  se arrepiavam.  Algumas vezes George se fazia acompanhar por outros meninos, companheiros da escola e quando isso acontecia os rivais nunca se aproximavam.

Gozado, o transporte público ainda era feito por bondes, não havia congestionamentos e no lugar dos prédios estavam os antigos casarões.  Alguns muito chiques e outros, decadentes, se transformaram em cortiços.  Alguns de seus amigos moravam por lá.  Lembrou da casa de seu amigo Luiz Carlos, um crioulo tão preto, tão preto que não era preto, era azul.  A mãe dele sempre recebia George com um sorriso e algum quitute. Durante algum tempo Luiz foi seu melhor amigo mas ele se mudou. As casas da região foram derrubadas para dar lugar a um prédio (na época muito moderno).

Bom, finalmente chegaram ao estúdio. O motorista logo foi identificado e a passagem liberada.

Mal George descera do carro uma assistente com “walk talk”, fones de ouvido e uma prancheta na mão o recepcionou e o encaminhou diretamente para um camarim.

George estava perdido, o que está acontecendo? “Será que essas pessoas sabem quem eu sou, um ilustre desconhecido?”

Ele perguntou para a assistente quando encontraria o Jô para combinarem o “script”.  O que ele deveria falar, como se comportar, o que evitar etc.

A mensagem foi:
- Fique tranquilo, não precisa de nada disso. Quanto mais natural melhor. O Jô saberá conduzir e você não precisa se preocupar. Tudo vai var certo.
- Mas puxa, disse ele, eu gostaria de convidar alguns amigos pra virem me ver.  Gostaria de dar uns telefonemas, enviar alguns e-mails...
- Não se preocupe, responderam, já pensamos nisso tudo e algumas  pessoas que você conheceu estarão na platéia.
- Ta bom!

A espera no camarim pareceu infinita.  De vez em quando passava alguém e perguntava se estava tudo bem.  Outras, se ele precisava de algo mais.  Depois de um tempo pediram para ele ir para a maquiagem.
- Maquiagem? Será necessário?
- Não se preocupe, coisa de televisão. 

Depois vieram algumas técnicos e lhe penduraram alguns fios e dois microfones minúsculos.

De novo George perguntou:
- Mas eu não vou ver o Jô um pouco antes?
- Não será necessário.  E ele se calou.

Depois de um tempo passou alguém anunciando:
- Faltam dez minutos.

Depois de 40 minutos
- Faltam 5 minutos

E um minuto depois:
 - Tá na hora” e deram um trato final no cabelo de George.

Ele ainda se perguntava:  “O que eu estou fazendo aqui?  Chamaram o cara errado e só na hora o Jô vai perceber. Que sinuca.  Bom, agora é tarde demais”.

O Jô finalmente anunciou :
- E agora, diretamente de Nova York, George Hicel.

George entra em cena, Jô a lhe esperar. Beijinho, beijinho (coisa de artista).  O pior aconteceu, Jô não fez cara de surpresa ou de espanto, apenas pediu para George se sentar.

Jô leu um breve “curriculum” de George e estava tudo correto e terminou dizendo:
- Com vocês George Hicel, que já foi artista, cantor, pai, empresário, esportista, equilibrista, político, contrabandista.

Que história é essa de “foi”, pensou, mas continuou calado até que Jô perguntou:
- Então, como é a vida em Nova York?
- Bom, é calma. Muito tranquila. A vizinhança é muito simpática.  Costumo acordar cedo, ir ao mercado encontrar pessoas que são sempre muito gentis comigo.  O lugar é muito ensolarado. Hoje, por exemplo, apesar de estarmos no começo do inverno, fui acordado com os raios de sol entrando pela minha janela... 

E assim George foi descrevendo tudo com um glamour que só existia na cabeça dele e colorindo o seu cotidiano a seu bel prazer.

Então o Jô perguntou:
- E há quanto tempo você não paga a sua faxineira?
- Bem, ela é uma ingrata sabe. Essa semana mesmo deixei uma grana preta em cima da mesa e ela sumiu com o dinheiro.
- Ela diz que você, além dos maus tratos, não lhe paga há mais de dois anos.
- Na verdade Jô (com uma intimidade empostada), eu andei um pouco descapitalizado.
- Sei, sei.
- Mas eu sempre fui muito generoso. 
- Ela diz que o dinheiro que você recebia gastava com bebidas e outras bobagens.
- Não precisa responder sobre isso vamos pra outra questão.
- Aquela filha da p.... 
- O que ia dizendo?
- Que Maria sempre foi uma pessoa dedicada. Gosto muito dela.
- É, dá pra notar!

O Jô continua a perguntar:
- Você mencionou que sempre foi generoso!  Quando foi isso, o que você fez em benefício dos outros?
- Jô, cê sabe, essas coisas a gente faz no anonimato. A gente não quer propaganda.
- Sei! Bom, minha ficha diz que o senhor além de não doar, costumava tirar dinheiro de instituições para as quais  dizia colaborar.
- Isso é uma inverdade. Ninguém pode dizer isso de mim.
- Bom, convidamos aqui a tesoureira de uma das organizações para dar o seu depoimento.
- Opa, é a Teresa, minha grande amiga. Oi Teresa tudo bem?  Diga a eles Teresa como eu trabalhava em prol da entidade.
- Grande amiga uma ova. O senhor costumava apresentar  despesas falsas para reembolso que eu era obrigada a fazer. Do contrário o senhor ameaçava a segurança de meus filhos.
- Mas Teresa, você está equivocada. Esse não era eu. Talvez você esteja se confundindo.
- Não estou equivocada não. Tenho aqui uma gravação de uma das suas ameaças. Quer ouvir?
- Não, não.  Acho que foi um momento de fraqueza. Você me perdoa não é Teresa?  Em nome de nossa velha amizade.
- Que amizade? Você nunca foi amigo de ninguém, exceto de você mesmo, seu mau caráter.

O Jô continua:
- No caminho do estúdio pedi pro meu motorista passar pelo seu antigo caminho da escola.  Os vidros quebrados continuam lá.
- Sabe como é não é senhor Jô, coisas de criança.
- Você também foi coroinha na Paróquia de Santa Margarida.  Diz aqui  que o senhor não só ajudava na coleta do óbolo como também ajudava a gastá-lo.
- Bom eu era muito pobre e o dinheiro era pra as obras sociais. Assim, só encurtei caminho e poupei o trabalho da igreja de ter que reparti-lo entre os pobres. Desagradável, você sabe.
- Vejo aqui que você não parava em emprego algum. Alguma razão?
- Os empregadores eram muito exigentes.  Eles me obrigavam a chegar no horário, a fazer tarefas acima de minhas possibilidades.  Férias, por exemplo, só uma vez por ano.  Horário para almoço, só de duas horas e ainda por cima exigiam que eu comparecesse de segunda a sexta. Eu não sou escravo.
- E na escola. Diziam que você só passava colando. Estudar jamais.
- Mas senhor Jô, colar é uma arte.
- E os trabalhos em grupo na universidade?
- Ah sim, lá foi diferente. Eu sempre fui muito colaborador e sempre fiz o trabalho mais pesado.  To vendo aqui alguns colegas da faculdade. Eles poderão confirmar.
- Não é verdade, alguém da platéia responde irritada.  Você, além de arrogante, sempre foi preguiçoso e egoísta e queria o seu nome no trabalho sem nada fazer.
- Você também participou do partido Humanista.  Sua ficha aqui tá suja.  Diz que todas as suas propostas foram em benefício próprio. Que nunca propôs nada em benefício da coletividade.
- Mas isso não é verdade.  Realmente eu tinha muitos projetos, mas eu não conseguia fazer aprová-los.
- É claro, o senhor não comparecia às sessões.

Continua o Jô:
- To lendo que o senhor foi desonesto e ladrão. Que sempre foi trambiqueiro e estelionatário.
- Nossa! Mas isso não verdade! 
- Estou vendo na platéia algumas pessoas acenando uns papeizinhos no formato de cheque. Eu pergunto: O que são esses papeis?

A platéia uníssona responde:
- Cheques sem fundos.
- Um de vocês poderia por favor ler quem é o emitente dos cheques.
- George Hicel.
- Obrigado, pode se sentar.
- George você tem algo a dizer?
- Senhor Jô, eu tava passando por dificuldades.
- Ah sim, estou lendo que o senhor fez parte de movimentos estudantis.
- Sim, eu sempre fui um defensor da liberdade e lutei contra a ditadura.
- É! Mas alguns de seus companheiros o acusam por serem traídos pelo senhor. Que o senhor os delatou por um punhado de moedas.
- Senhor Jô, isso não é verdade. Quem disse isso?
- Eles estão ali na terceira fila. Podem se levantar.
- O senhor os reconhece?
- Sim, eu pensei que eles tivessem sido fuzilados.

- E no amor. Dizem que você despedaçava corações.
- Ora senhor Jô, não precisava me elogiar. Na verdade eu sempre fui muito charmoso, romântico, amoroso...
- Mas eu não estou elogiando. Estou dizendo que você despedaçava no sentido de destruir.  Muitas mulheres depois de serem usadas pelo senhor foram abandonadas.
- Mas eu era jovem.
- Sim!  E pai? Como o senhor foi com os seus filhos?
- Eu sempre os amei muito e sempre fui amoroso e dedicado.
- Não é o que diz a minha ficha. Diz aqui que o senhor não trabalhava e que roubava o dinheiro de seus filhos.
- Mas senhor Jô, os filhos devem cuidar dos seus progenitores. Como eles não faziam espontaneamente...
Michelangelo - O Juízo Final.
(detalhe)
- E como marido? O que o senhor tem a nos dizer.
- Disso eu me orgulho, eu sempre fui um marido exemplar. Quem me conhece sabe disso. Pode perguntar a quem quiser.
- Bem, a sua ex-esposa está aqui e poderá testemunhar de viva voz. Dona Fátima.
- Senhor Jô, esse homem...  ele nunca prestou. Não trabalhava, bebia, me batia, vivia correndo atrás de rabos de saia.
- Espera aí, a minha mulher já morreu.
- Pois é, o senhor também.
- Mas isso aqui é o juízo final?
- Não te contaram?

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