7 de mai de 2011

BRENDOLA, UMA HISTÓRIA - Crônica


Hoje foi o nosso segundo dia de visita a Brendola.

- Brendola?  Não seria Brindisi? 

- Não, não, não!  É Brendola mesmo. Um pequeno “paese” no Veneto, na Província de Vicenza.

Foi lá que em 1853 nasceu meu bisavô, Domenico Tamiozzo.

Quando chegou ao Brasil o seu nome foi mudado para Domingos Toniosso. Por que tamanha mudança? Isso eu não sei. Nessa época eu não era nascido. Mas, ao que parece, houve um abrasileiramento dos nomes italianos. Minha tataranona, que era Giovanna, passou a ser Joana e o Tamiozzo passou a ser Toniosso. Nesse último caso não sei se foi um erro do escrivão ou outra coisa. Agora isso não faz diferença.

Chegamos ontem, umas 4 horas da tarde. Eu havia feito uma reserva num hotel por telefone. A senhora que me atendeu não entendeu por que eu não “parlava” italiano. Isso porque, ela me disse depois, Tamiozzo é um nome típico de Veneto e em Brendola há vários Tamiozzo. Ela pensava que eu fosse um local.

Ela, Nadia, muito carina e acolhedora. Quando lhe contei que o motivo de nossa visita  era conhecer o lugar de onde o meu bisnono partiu para o Brasil, quis saber tudo a nosso respeito e procurou nos ajudar de todas as formas. Nos contou muitas coisas de Brendola, sua história, sua geografia, sua gente etc.  Também nos contou que o pai do seu marido estivera na Argentina e que retornara de lá com um baú com os seus pertencentes e que ela ainda o mantinha na casa (o baú). Disse também que um grande amigo, seu vizinho, era Tamiozzo e que ela nos apresentaria.


Bom, o hotel da Nadia está localizado na Piazza del Popolo, onde também está a Igreja de São Miguel Arcanjo, onde o meu bisnono foi batizado e depois se casou com Angela Dinale, de Zovencedo, uma picolíssima cidade pertinho de Brendola, do outro lado da colina. 


A igreja encantadora, em estilo gótico, com uma decoração simples, mas muito proporcional e equilibrada. Sem exageros desnecessários.



Claro que foi uma grande emoção dormir no quarto com as janelas dando vista para a fachada dessa igreja, decorada de forma muito típica.

Concheta ficou toda emocionada, na verdade tanto quanto eu.


Onde fica Brendola?  Bem, isso eu já disse. Perto de Vicenza, vizinha de Montecchio (Romeu e Julieta), paralelo “x”.   Bom, tudo isso é irrelevante considerando a geografia particular do local. Brendola fica num vale de origem vulcânica. Parece (mas não é) a boca de um imenso vulcão.  Nas suas encostas há pequenas cidades. O fundo do vale parece não ter saída, formando uma espécie de concha. Há muita vegetação, bosques, lagos, vinhedos.  Mas, muito mais do que isso tudo, o lugar é incrivelmente mágico.



Hoje saímos para um passeio nos arredores. A região é muito desenvolvida com muitas indústrias, autopistas, um trânsito de lascar.  Na volta só encontramos a placa de “Brendola” quando estávamos a 3 quilômetros da entrada da cidade, ou seja ela é “veramente” um picolo “paese”.

Vínhamos por uma estrada muito movimentada, em seguida dobramos à esquerda e toda aquela agitação sumiu. Parece que entramos num espaço onde o tempo parou. Mas esperem, estávamos na parte baixa da cidade, no seu lado “moderno”.  Um quilômetro depois, subimos uma colina e estávamos no centro histórico de Brendola e lá a magia é total. Estávamos num outro planeta. Acho que a seqüência das fotos poderá dar uma idéia.

 




Brendola ainda é uma cidade muito agrícola. Muitos vinhedos, trigo, pequenas igrejas.
                        
Nela habitam 6.000 pessoas (excluindo a gente, é claro). Há muitas histórias de guerra (principalmente da primeira), prédios, museus, monumentos e até casas ou “vilas” privadas que guardam essas lembranças.

  
  
Há também histórias bizarras. Como a da igreja que jamais foi concluída. Contaram-me, não posso dizer quem, o projeto era fazer uma igreja monumental, mas as paróquias vizinhas se opuseram e os cidadãos nunca chegaram a um entendimento do que fazer com o enorme prédio.  Nos mapas turísticos essa igreja sequer é mencionada. É como se não existisse. Por incrível que pareça o seu maior charme é a vegetação que cresceu em volta, dentro dela e no seu teto. Mas o local não é explorado como ponto turístico, o que é uma pena. Acho que a foto que fizemos confirma (ou não?) a minha idéia.


Na nossa primeira saída do hotel para um pequeno passeio, encontramos um operário que trabalhava no calçamento de pedra da praça. Como ele viu a placa francesa do nosso carro já foi brincando com a gente, soltando um “bonjour”.

Como se sabe, os italianos não são apaixonados pelos franceses e achei melhor dizer:

- ... a máquina é francesa “ma io non”. 

- De onde são?
- Do Brasil!  Estou aqui para descobrir a terra do meu nono que nasceu aqui e se casou nessa igreja.
- Non é vero. Come si chiamava tuo nono?
- Domenico Tamiozzo.
- Quello... ele era amigo do meu bisnono e trabalhavam juntos nos vinhedos.
Eu digo,
- Mas o meu bisnono nasceu em 1853.
- Sim, e o meu em 1858. Agora alguns Tamiozzo moram perto do campo de golf.
- Nossa que coincidência.

Ele completou.

- O melhor vinho da região é o meu. Eu colho as uvas, preparo e distribuo para os meus amigos. Na verdade, o melhor vinho da Itália. Amanhã beberemos um pouco.

Eu digo:
- De acordo. Si vediamo domani. Ciao.

Descemos a ladeira e procuramos uma casa onde nos disseram morar um Tamiozzo.

- Buon giorno signore. O senhor conhece um Tamiozzo que mora por aqui?
- Mas que Tamiozzo?
- Não sei, um Tamiozzo.
- O que vocês querem com ele?
- Nada, apenas conhecê-lo. Talvez sejamos da mesma família.
- Ah sim!?
- Io sono brasiliano e mio nono ... 

Aos poucos o senhor vai abrindo o portão e nos diz:
- Eu sou Tamiozzo, meu nome é Egidio.  Vamos perguntar a minha mãe. Talvez ela se lembre do seu bis nono ou de alguma coisa.

Entramos na casa, conhecemos a senhora, mas ela, bem velhinha, não se lembrava de nada (e nem poderia) e como ela não tinha os registros do nome dos avôs não conseguimos muita coisa, exceto um sorriso.

Na volta para o hotel, Nadia, a proprietária do hotel, disse haver telefonado para uma Tamiozzo que nos receberia no dia seguinte e que talvez tivesse alguma informação.

De manhã cedinho abro a janela do quarto e tudo não havia sido apenas um sonho. A igreja de São Miguel Arcanjo continuava lá. Toda pintadinha do seu jeito especial, com sua torre separada do corpo da igreja muito charmosa. Fizemos muitas fotos.

Partimos para uma passeggiata ao alto da colina onde ainda há ruínas de um castelo medieval.  De lá a vista da cidade antiga é belíssima. Os sinos da igreja soaram uma melodia inesquecível. Continuamos nas bordas da cratera do vulcão e demos uma volta grande até o campo de golf e esperávamos encontrar algum Tamiozzo.  Encontramos um senhor que nos disse haver um grupo de Tamiozzos que habitava perto do campo de golf, mas não encontramos ninguém. Encontramos as casas, mas havia um silêncio profundo. Ficamos com receio de bater palmas ou de bater na porta.



Esperávamos encontrar alguém na rua e perguntar. Como não encontramos ninguém, não tivemos a cara de pau de quebrar o silêncio e chamar alguém que eventualmente estivesse dentro de alguma das casas.

                                                  
Quando descemos para a parte antiga da cidade, isso a meia colina, já que a cidade mais moderna fica mais abaixo, reencontramos o neto do amigo do meu bisnono, Renzo. Ele diz:

- Trouxe o vinho pra gente beber.
- A que horas então bebemos?
- Quando você quiser.
- Aguardo a minha esposa e em seguida bebemos.

Quando Concheta chegou ele parou o trabalho de fixação das pedras, abriu um freezer que havia trazido e tirou os copos e duas garrafas de vinho. Eu tava meio incrédulo.

Ele mostrou o rótulo das garrafas com o seu nome, explicou como produzia o vinho e sem mais delongas...

Provamos o vinho do Renzo... Se não era espetacular pelo sabor, era espetacular pelas circunstâncias. Ele chamou os outros funcionários que trabalhavam com ele e um amigo que passava na rua.  Continuamos brindando, bebendo e parlando. Ele contou pra todos o que fazíamos em Brendola, contou algumas histórias e, bem, naturalmente, voltou ao trabalho. Lamentou que iríamos partir antes que ele pudesse nos mostrar alguns sites interessantes que ele conhecia.  Deixamos tudo para a nossa próxima visita.

Despedimos-nos e seguimos em direção ao Monte Grappa. Uma montanha de 1800 metros e a 50 quilômetros dali. O interesse de ver a montanha, além de ser um lugar sagrado de luta, onde muitos italianos morreram na resistência, era a possibilidade de avistar Verona, Veneza, Vicenza e outras pequenas cidades de Veneto, sem contar as Dolomitas.  Infelizmente o tempo fechou e tudo que vimos foram muitas nuvens acompanhadas de uma densa chuva. No caminho encontramos algumas vacas que eram conduzidas de um pasto a outro. Elas bloquearam durante algum tempo o nosso caminho, mas foi prazeroso sentir aquela atmosfera pastoril tão próxima a centros urbanos desenvolvidos.

Na volta para Brendola o telefone tocou. Era Barbara Tamiozzo, com quem a Nadia, dona do hotel, fizera contato. Ela nos convidou para um encontro no nosso hotel às 20 horas. Disse que levaria uma amiga.

No hotel funciona um belo restaurante, ”Novecento”, e o maitre nos encaminhou para uma sala reservada. A amiga era uma jornalista, Izabella Bertozzo, que gostaria de ouvir a nossa história e publicá-la, se concordássemos, no jornal local. Bebemos um pouco, conversamos e nos divertimos. Barbara, muito simpática, é assessora de cultura de Brendola e nos disse que as nossas famílias eram de ramos diferentes, apesar do mesmo nome.  Revelou também que a pessoa que havíamos encontrado, Egidio Tamiozzo, era seu pai. Rimos muito com a coincidência.


Contamos a história do nono a Isabela, onde ele havia estado e a história de alguns de seus descendentes. Ela fez algumas fotos e propôs um encontro para o dia seguinte, que será amanhã. Portanto, agora não sei dizer o que vai acontecer. Bem, daqui uns dias saberemos.

Agora vou dormir

Walter Tamiozzo
Brendola, 26 06 2009




2 comentários:

  1. Bravo Walter pour tes chroniques, c'ets toujours aussi drole 'a lire ... Maintenant il faut ecrire en francais. Bisous, Francoise

    ResponderExcluir
  2. Francoise, mon amie bonjour. Merci de ton commentaire mais ecrire en francais je n'ose pás. Peut-etre dans l'avenir. Et ou' est ton portugais que tu as pratique a Bahia? Bisous, Walter

    ResponderExcluir