22 de abr de 2011

DOM WALTER DE LA MANCHA - Crônica


Dom Walter de La Mancha e sua inseparável companheira, Dulceição (Conceição), viajaram por mares nunca dantes navegados para chegar a El Toboso, pátria de Dulcinéia e terra de seus famosos ancestrais: do cavaleiro da triste figura, Dom Quixote e de seu fiel escudeiro, Sancho Pança.



Leitor:
 - Mas, senhor Dom Walter, em El Toboso não hay mar!
- Ora, claro que há, olha a foto ai embaixo!   Leitor, por favor, não interrompa a narrativa.


- Ah bom...

No caminho enfrentaram batalhões de poderosas formigas assassinas e de alienígenas, os arboranos, vindos para invadir e dominar a terra, disfarçados em árvores gigantes.

Leitor:

- Mas isso são arbustos Dom Walter.

- Como queira, mas são os arboranos disfarçados. Após dura batalha, expulsei-os da terra de volta à sua galáxia.


Bem, deixando a ficção e voltando à realidade, esta última parecerá menos real do que a primeira.

El Toboso é um povoado manchego, de 2.000 habitantes, localizado na província de Toledo, a 140 km de Madrid. Ele contém uma carga imensa de evocação quixotesca. Tudo em El Toboso remete a Dulcinéia e a Alonso Quijano, o fidalgo que assombrou o mundo com seu idealismo.

Dulcinéia del Toboso é a dama imortalizada por Miguel de Cervantes como musa de Dom Quixote.



El Toboso - Cidade Fantasma


Rocimóvel

Chegamos a El Toboso num sábado, logo depois do meio dia.  A praça central estava deserta.  Cortamos a cidade de Rosimóvel e parecia que estávamos num daqueles filmes “Além da Imaginação”, viva alma.  De repente vimos uma velhinha caminhando curvada e com uma bengala. Ficamos com medo de perguntar alguma coisa, pois temíamos nos aproximar de um ente que, às tantas, não fazia mais parte desse mundo. Respirei fundo, me enchi de coragem e me dirigi à senhora.

- Hola, buenas tardes... E recuei um pouco.

A senhora, surpresa, me olha bem, processa a pergunta, levanta a cabeça e responde:
- Hola, buenas...

Então lhe pergunto:
- De donde está todo mundo? A cidade parece vazia. 

- Ah si, então todos no casamento da filha do prefeito. 

- Ah bom. Bem estamos com fome. Sabe onde poderíamos encontrar um restaurante por aqui.

- Está tudo cerrado. 

- Gracias, até logo.

Saímos desapontados, mas aliviados, afinal aquilo não era um pesadelo.  E partimos à procura de algum lugar aberto. 

Tudo, tudo absolutamente cerrado.  Finalmente começamos a ouvir vozes e fomos nos aproximando.  Pimba! Encontramos o local da festa do casamento. Um restaurante enorme. As senhoras todas vestindo aquelas roupas... de casamento, entendem. Os senhores e os rapazes de paletó e gravata e alguns até de fraque.

Aproximamo-nos, chegamos à porta e fomos entrando, nos misturando com o pessoal. Ainda tinha gente chegando, mas alguns já estavam saindo. Parecia que ia dar tudo certo. Nessa hora pensei: terra estrangeira, vilarejo onde todo mundo se conhece, me sentindo um pouco como um ET, é melhor procurar o “chefe” do restaurante e lhe explicar a situação.  Ele muito simpático:

- Fiquem tranquilos, lhes arrumo una mesita.

Assim, timidamente, participamos da festa.

Aliviados com a impressão de cidade fantasma e com a pança cheia, voltamos ao centro da praça que, aos poucos, foi ganhando vida.

Após um “rato”, que em espanhol é um momento, procuramos o Museu Cervantino, uma das principais atrações da cidade.  Lá estão expostas edições de Dom Quixote em 47 idiomas. Algumas edições são raras e exclusivas. Entre elas uma edição com caracteres celtas, outra escrita em euskera, algumas manuscritas e, ainda, exemplares assinados e doados por personalidades como Mussolini, Hitler, Kadafi, Peron, Reagan etc.

Chegando à bilheria, yo, com mi espanhol fabuloso, vou logo pedindo:
- 2 taquillas (tickets), por favor.
A bilheteira, muito simpática,

- Ah si, buenos dias, como no! De donde son ustedes?

- Bom dia senhora, somos brasilenhos.

Ela continua:
- Isso é para fins de estatística, muchas gracias. Aproveitem a visita. Hasta luego.

- Hasta luego, respondo.
Fomos então até a entrada do museu e vem a mesma senhora:

- Buenos dias...

- Buenos dias, respondo e lhe entrego as taquillas.

- Aproveitem a visita.

- Gracias, digo yo.

Em seguida, estamos lá, concentrados, observando as obras e chega uma senhora, a mesma, e começa a nos explicar a coleção. Ela, além de bilheteira e porteira, era a guia do museu.

Claro, ela foi muito amável e nós nos divertimos muito com suas histórias, que incluía a origem de algumas obras, de como algumas edições foram ilustradas por artistas do quilate de Salvador Dali e Gustave Doré etc.

Nossa história nessa pequena cidade não termina aqui, pois, ao sair mos do museu, fomos até a igreja do povoado, de San Antonio Abad, construída no início do século XVI. Para nós foi emocionante, pois que a igreja foi citada por Miguel de Cervantes em 1615 quando disse «Guió Don Quijote, y habiendo andado doscientos pasos, dio con el bulto que hacía la sombra, y vio una gran torre, y luego conoció que el tal edificio no era alcázar, sino la iglesia principal del pueblo. Y dijo: Con la iglesia hemos dado, Sancho».

A igreja chama atenção por sua estrutura de pedras rosadas que, contrastando com o azul do céu, dá uma fotografia incrível. Lá chegando, encontramos uma multidão: três senhoras antes de nós que compravam ingressos. A bilheteira lhes entrega os tickets e fecha a janelinha do guichê.  Sem hesitar bato na janela e a senhora toda apavorada e sem jeito, reabre e nos diz:

- Nossa, não esperava tanta gente hoje, me desculpem. 

Compramos os ingressos e visitamos a igreja. Linda. Ao sairmos a senhorinha nos esperava  à porta. Ela nos deu um mapa da cidade e algumas informações. Depois  de uma pequena conversa nos despedimos e ela, muito carina, nos deu um beso. Nós, felizes, lhe dissemos que nunca a esqueceríamos, Alicia.



Walter Tamiozzo
El Toboso, Espanha, 20 04 2011





7 comentários:

  1. Adooooorei a crônica!!!
    Muito, muito boa!
    Parabéns Walter!!

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  2. Dom Walter de La Mancha,

    Sua veia artística está cada vez melhor. Em uma tarde de sábado de aleluia, muito sol e calor aqui em SP, me senti transportada aos tempos de Dom Quixote.

    bjs para você e sua inseparável companheira Conchita, ou melhor, Consancha!! Marlene

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  3. Querida amiga Marlene. Muchas gracias pelo seu carinho.

    Dom Walter de La Mancha & Consancha

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  4. Dom Waltere dua inseparável Dulconceição. Amei a crônica. É leve e nos remete exatamente a esse cenário. Senti uma imensa curiosidade do visual do interior da bela igreja. Publique sempre, Dom Walter,você e sua amada tem leitores e fãs garantidos!♡

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    1. Oi... Obrigado pelo comentário. Não consegui ainda identificar quem o postou mas, de qualquer forma, foi muito simpático. No endereço abaixo encontrei uma fotinha do interior da igreja. Portanto, se ainda tiver interesse de ver é só clicar ou copiar o link.
      Valeu!
      http://www.turismodeescapadas.es/ficha_escapada.php?id=p135eltoboso

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    2. Ah sim, encontrei esse pequeno video no youtube que mostra e explica bem a igreja. Saudaciones (kkk)

      https://www.youtube.com/watch?v=kBcbKU-wua8 (é so copiar o link e clicar)

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